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O porquê que não está sendo discutido

A série 13 Reasons Why estourou, logo, o assunto acerca de bullying também. Porém, há mais a ser explorado no enredo e nem todos estão enxergando isso.

Poderia ter escrito esse texto quando li o livro, em meados de 2015, porém, foi só no dia 31 de março desse ano que a Netflix liberou todos os episódios da adaptação homônima de 13 Reasons Why e o tema gerou alvoroço. Num primeiro momento, tive receio da forma que adaptariam a história, mas, a partir do momento em que vi quão boa estava a série, tive receio do alvoroço que ela geraria, em especial, na internet.

Vivemos rodeados por uma geração que precisa mostrar e falar acima de tudo e de todos, logo, o boom de uma narrativa que aborda um tema tão tabulizado não poderia ter outra repercussão senão uma enorme onda de pessoas que se consideram críticas e problematizadoras contemporâneas borbulhando em comentários. Por essas e outras, escrever sobre o assunto foi uma decisão muito difícil. Entretanto, fez-se necessária.

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Tanto na série quanto no livro, conhecemos a história de Hannah, uma garota de 17 anos que cometeu suicídio e deixou treze fitas explicando os porquês que a levaram a isso. Cada fita é direcionada a alguém que a machucou de alguma forma em algum momento e podemos acompanhar as fitas na perspectiva de Clay, uma das pessoas a recebê-las. As fitas contam com relatos que podem ser consideradas desde coisas pequenas, na visão de muitos, até crimes, como estupro. Os acontecimentos não envolvem apenas Hannah – não de forma direta – o que reforça a ideia de que pequenas atitudes podem ser muito prejudiciais e de como uma pequena coisa pode gerar consequências graves para mais de uma pessoa.

O intuito da narrativa é realmente esse: alertar o quanto nossas atitudes podem influenciar as vidas a nossa volta. O livro foi trabalhado em várias escolas americanas, gerando campanhas de combate ao bullying, e a adaptação da série gerou uma nova onda de debates e incentivo a essa luta, em especial, no ensino médio. Entretanto, continuo com a sensação de que não estão abordando os porquês profundamente.

Não é minha intenção desmerecer toda e qualquer experiência de bullying, tampouco qualquer debate e luta. Inlcusive, esse poderia ser mais um texto sobre como também sofri com o bullying e eu poderia me juntar a essa campanha de #NãoSejaUmPorquê, falar um monte de redundâncias e clichês, mas, obrigada, eu passo. Bullying é, realmente, uma coisa péssima e refletir sobre é importante, mas em algum momento, em meio a todo esse alvoroço e toda essa urgência em agir como quem se importa, estão parando para pensar realmente nessas situações e no que as provocam?

Classificar ou julgar de qualquer forma uma garota como vadia, fácil, dentre outras classificações pejorativas abordadas na série, não é algo que acontece isoladamente como forma de bullying. Acreditar que pode fazer o que quiser com o corpo de uma mulher e com sua imagem não são situações específicas de bullying. Estupro é crime. Essas situações não estão restritas à mera classificação de bullying tampouco reservadas ao ambiente adolescente e escolar. Não. Isso que escolheram chamar de bullying, na verdade, provém de raízes profundas.

O que Hannah passou não foi muito diferente do que eu passei por sempre andar com os garotos, mas não ser a garota que se comporta como um, ou por minhas escolhas de com quem me relacionar, tampouco, duvido que essas situações sejam diferentes da de milhares de garotas por aí. Isso mesmo, garotas.

Os garotos não estão sendo classificados como vadios ou fáceis a partir de qualquer comportamento ou rumor a seu respeito, na verdade, por muitas vezes eles são enaltecidos por essas coisas. Os garotos não estão tendo seus corpos violados nem estão sendo tratados como produtos feitos para o consumo alheio, tendo sua vontade subjugada e sua voz silenciada. A cada 11 minutos, uma mulher é estuprada no Brasil¹. Querem que eu me junte a vocês e diga que o nome disso é bullying?

Ei, lá vem a feminista querendo ver machismo em tudo. Calma, são só fatos. Vivemos numa sociedade enraizada numa cultura patriarcal que reproduz constantemente um comportamento que inferioriza, prejudica e mata mulheres. Podemos ver os frutos disso em todos os lados, inclusive, no bullying praticado nas escolas. Afinal, não foi isso que aconteceu com Hannah?

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Continuem com suas campanhas contra bullying e com todo o hype a respeito da série, que, feliz ou infelizmente, sabemos que não vai durar muito. Porém, antes que eu me engasgue com mais alguns minutos de hipocrisia e falso moralismo que estão jogando deliberadamente na internet, tentem olhar também para as raízes por trás das histórias. Não basta dizer para não serem um porquê se continuarem alimentando o patriarcado nosso de cada dia, queridos.

P.S.: Outro tema que precisa de atenção nessa onda toda de 13 Reasons Why é a depressão, porém, já escrevi outros textos sobre isso no blog. Então, caso tenham interesse sobre esse assunto em específico, é só dar uma olhada neles aqui.

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