feminismo

Minha irmã terá que enfrentar mais do mesmo

Quando ouvi minha irmã dizer “pode contar comigo também”, comecei a chorar.

10 de junho de 2016,

Era aniversário da minha irmã e, como provavelmente não nos veríamos, mandei um áudio para o celular da mãe dela assim que pude, desejando parabéns e tudo que sempre desejo para todos os meus irmãos.
Então, segui com meu dia normalmente.

Fui para a faculdade.

Coisa ali e aqui acabaram me estressando.

Mais do mesmo.

Fui para o trabalho.

Mais do mesmo.

Fiquei abalada com a indiferença de caras que costumava conhecer.

Mais do mesmo.

Discuti com alguém a respeito das eleições do DCE da nossa universidade até cair em prantos e encerrar a discussão.

Mais do mesmo.

Li um texto escrito por uma vitima de abuso sexual ao homem que a abusou.

Infelizmente, mais do mesmo.

Então, quando peguei o celular, vi que havia recebido a resposta da minha irmã. Ela gravou um áudio em resposta.
No áudio, ela agradecia os parabéns e dizia que estava com muita saudade. Quando achei que havia terminado, ouço sua voz fininha dizendo “Ah, pode contar sempre comigo também”.

Sempre digo aos meus irmãos que eles podem contar comigo, sempre espero que eles se lembrem disso e que, se possível, retribuam. Porém, dessa vez, nesse dia, foi diferente.

Comecei a chorar.

Primeiro, chorei sem saber ao certo porque estava chorando, sequer sabia se era choro de tristeza ou de alegria.

Depois, entendi.

Acabara de ouvir ali uma menina de apenas sete anos que já havia entendido como tudo funciona.

Ela já sabia que podia contar comigo não só porque eu sou sua irmã de sangue, mas porque eu, em todos os sentidos, sou sua irmã e companheira.

E eu, ao ouvir aquela voz fina, porém tão forte e entusiasmada, já sabia o que a esperava.

No fim das contas, tudo o que teríamos era umas as outras e era com nada além disso que poderíamos contar.

As mulheres continuarão sendo silenciadas independente do segmento, do posicionamento e do momento, e quando questionarem a hipocrisia, a resposta mais elaborada que ouvirão possivelmente rondará a simples frase “isso é política”. Pois nessa política feita por homens e por quem os apoia, não há com quem contar a não ser com nós mesmas.

Enquanto essa conjuntura permanecer, as mulheres continuarão sendo apenas peças das engrenagens que moverão interesses maiores e suas pautas só terão atenção quando esses mesmos maiores acharem que convém. As organizações não serão feitas para nós. As campanhas não serão feitas para nós. As políticas não serão feitas para nós. Ouso dizer, eles sequer ligarão para nós.

A voz entusiasmada da minha irmã, futuramente se transformará numa voz de apelo.

É desesperador perceber o quão distante a realidade está de ser algo minimamente suportável para as mulheres. É enlouquecedor constatar o quanto a “política” nos torna solitárias se não nos submetermos à política deles. É doloroso. É caótico. É hipócrita. É, no mínimo, injusto.

Então, me lembrarei da voz alegre da minha irmã ao afirmar com tanto afinco que eu poderia contar com ela e, provavelmente, chorarei. Chorarei por saber o que a aguarda, o que me aguarda.
Porém, em algum ponto de toda essa constatação me tornarei forte.

A voz entusiasmada da minha irmã, futuramente se transformará numa voz de apelo. Uma voz de quem sabe que o caminho é árduo e doloroso, mas que sabe que, ao menos podemos contar uma com a outra.

Poderá parecer pequeno, mas ao olhar para os lados talvez encontremos outras.
E lá estaremos nós, caminhando dolorosamente sobre mais do mesmo, na esperança e na luta.

“Às mulheres em toda parte, eu estou com vocês. Nas noites em que vocês se sentirem sozinhas, eu estou com vocês. Quando as pessoas duvidarem de vocês ou ignorarem vocês, eu estou com vocês. Eu luto todos os dias por vocês. Portanto, nunca parem de lutar. Eu acredito em vocês. Como a autora Anne Lamott escreveu uma vez, “O farol não fica correndo pela ilha procurando barcos para salvar, ele simplesmente fica lá brilhando.” Embora eu não possa salvar todos os barcos, espero que, enquanto eu falo hoje, você absorva uma pequena quantidade de luz, uma pequena compreensão de que você não pode ser silenciada, uma pequena satisfação de que a justiça foi feita, uma pequena certeza de que estamos chegando a algum lugar, e uma grande, grande compreensão de que você é importante, inquestionavelmente, você é intocável, você é linda, você deve ser valorizada, respeitada, inegavelmente, cada minuto do dia, você é poderosa e ninguém pode tirar isso de você. Às mulheres em toda parte, eu estou com você. Obrigada.”

– Trecho da carta da vítima de estupro de Stanford.

| Imagem encontrada neste link e escolhida para minha irmã, que gosta muito de Frozen.|
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