feminismo

Abusos Silenciosos

As relações abusivas têm recebido atenção e sido motivo de estudos ultimamente. Podendo acontecer em todos os tipos de relações, os casos mais recorrentes e conhecidos são em namoros e casamentos, em que as mulheres são predominantemente as vítimas. Normalmente, vistos como violência sexual ou física, os abusos estão muito mais presentes do que apenas nesses casos.

 As consequências de relações abusivas são conhecidas. Desfechos trágicos, normalmente envolvendo assassinato, são constantemente noticiados. O que os jornais brasileiros pouco exploram, porém, são as raízes dessas problemáticas, como contê-las e o quanto elas são comuns, inseridas nos abusos silenciosos do cotidiano de grande parte da população.

As faces do abuso

 No núcleo familiar, entre amigos, no ambiente de trabalho e nos mais diversos tipos de relações, independente de gênero, idade e ligação afetiva, o abuso está presente. A necessidade de combatê-lo, em todos os casos, é urgente. Porém, o foco dos estudos realizados nas últimas décadas é a violência entre parceiros íntimos.

 Em 2011, uma revisão do Instituto de Psicologia da UNB expôs um estudo realizado com 3.200 adolescentes de dez estados do país. Nele, 86,9% dos participantes relataram terem sido vítimas de abuso. Paralelamente, 86,8% dos participantes relataram experiências como causadores da violência contra o parceiro íntimo, tendo sido a violência verbal e a sexual as mais frequentes.

 Na identificação dos relacionamentos que podem ser caracterizados como abusivos, alguns comportamentos podem ser destacados, como agressividade, relações sexuais forçadas, posse e controle, manipulação, humilhação e violência emocional. Apesar de parecerem comportamentos específicos, são atitudes que se disfarçam em situações que soam normais.

 As causas desses comportamentos são variadas, colidindo fatores socioculturais, familiares e pessoais. A revisão do Instituto de Psicologia cita alguns deles, como conviver em comunidades sexistas, testemunhar ou ser vítima direta de violência parental, sofrer abuso sexual e ter poucas habilidades sociais assertivas de manejo de raiva e de autocontrole emocional.

 Os estudos citados nessa revisão mostram que os efeitos desses relacionamentos afetam ambos os parceiros. Dentre os danos destacam-se prejuízos para desenvolvimento da autoestima, reações psicossomáticas e estresse pós-traumático nas vítimas do sexo feminino e estresse pós-traumático, alcoolismo e depressão nas vítimas do sexo masculino.

Mulheres na mira do abuso

 “Todo mundo pode sofrer abusos em relacionamentos. Porém, esse tipo de comportamento é mais recorrente em relacionamentos heterossexuais, partindo do homem, porque estamos em uma sociedade machista e patriarcal, que raciocina que o homem é o legítimo controlador de sua companheira”, explica estudante de Direito e integrante do coletivo Pagu, Arielle Vieira.

A ideia de que a mulher é uma figura frágil e influenciável, constantemente compartilhada nos dias de hoje, abre uma lacuna para que as atitudes abusivas do homem sejam compreensíveis e perdoáveis. O prejuízo dessa ideia enraizada na sociedade reflete na violência contra a mulher, uma problemática que atinge todas as classes sociais.

 Na Lei Maria da Penha estão previstas cinco formas de violência contra a mulher: violência física, violência psicológica, violência sexual, violência patrimonial e violência moral. Na teoria, o amparo para as vítimas de qualquer um desses quadros deve estar à disposição, na prática, entretanto, a burocracia atrapalha na efetividade desses auxílios.

Abuso psicológico

Art. 7º da Lei Maria da Penha, parágrafo II:

II – a violência psicológica, entendida como qualquer conduta que lhe cause dano emocional e diminuição da autoestima ou que lhe prejudique e perturbe o pleno desenvolvimento ou que vise degradar ou controlar suas ações, comportamentos, crenças e decisões, mediante ameaça, constrangimento, humilhação, manipulação, isolamento, vigilância constante, perseguição contumaz, insulto, chantagem, ridicularização, exploração e limitação do direito de ir e vir ou qualquer outro meio que lhe cause prejuízo à saúde psicológica e à autodeterminação;

Logo, a violência psicológica se torna uma forma de abuso abrangente. “A grande armadilha é que a violência psicológica contra mulheres é algo naturalizado”, afirma a psicóloga doutoranda em sociologia, Maíra Cerrado. “O pior trauma é o silenciamento que o abuso provoca e isso é algo que atinge absolutamente todas as classes”, acrescenta.

Com a atenção crescente sobre o assunto, as análises de formas de abuso psicológico mascarado trouxeram novos olhares e classificações para situações que passam despercebidas. Os termos, sem tradução para o português até o momento, vêm sendo discutidos em grupos de estudos e reuniões, predominantemente com os jovens como público alvo.

O manterrupting, junção dos termos em inglês man (homem) e interrupting(interrompendo), em tradução livre, homem interrompendo, é um deles. Ocorre quando uma mulher não consegue concluir o que diz por ser constantemente interrompida por outro homem. Casos desse tipo são comumente vistos no meio acadêmico, no ambiente de trabalho e na mídia.

Outro é o bropriating, a junção dos termos em inglês bro (termo derivado de brother, irmão) e appropriating (apropriação), é a apropriação de uma ideia, nesse caso, quando um homem se apropria de uma ideia de uma mulher e leva crédito por isso. Situação predominante em reuniões e no dia-a-dia do ambiente de trabalho.

Mansplaining, junção dos termos em inglês man (homem) e explaining (explicar), mais um exemplo, é quando o homem tenta explicar algo óbvio para uma mulher, tratando-a como alguém intelectualmente inferior a ele. Também há o caso em que um homem usa argumentos para mostrar como seu intelecto é maior que o da mulher em determinado assunto.

 O mais recorrente, porém, é o gaslighting, a violência emocional por meio de manipulação psicológica, quando a vítima é convencida de que é louca ou incapaz. Forma de abuso grave que afeta todos os gêneros, porém, tendo as mulheres como vítimas culturalmente mais fáceis. Nesses casos, a vítima passa a duvidar de seu senso de realidade, percepção, raciocínio e sanidade.

 O termo gaslighting surgiu a partir de um filme homônimo, de 1944, em que um homem, para tomar a fortuna de sua esposa, desenvolve uma série de artimanhas – como piscar as luzes da casa, por exemplo – para convencê-la de que ela enlouqueceu. Se internada como doente mental, ele poderia ficar com toda a fortuna para si.

 Um caso recente foi o caso de cinco mulheres da marinha americana. Elas afirmaram ter sido vítimas de estupro dentro da corporação e foram afastadas por possuírem problemas emocionais. Outras mulheres relataram casos semelhantes e, após as agressões, ouviram coisas do tipo que queriam e agora haviam se arrependido ou que aquilo nunca havia acontecido.

 Esse tipo de agressão psicológica é comum dentro de relacionamentos e as vítimas só se dão conta do que está acontecendo após sentirem o abalo. “Terminei nosso namoro esperando uma valorização que nunca recebi. A forma que ele me tratava como estúpida e inútil haviam me afetado, foi quando percebi que passei por um relacionamento abusivo”, relata a estudante M.*

Aplicação da regra

 Os relacionamentos abusivos estão por toda parte. Seja nas narrativas de filmes, séries e novelas, na literatura e até nas letras de músicas. Um exemplo são as letras das canções compostas pela cantora inglesa Adele, que revelam a aflição passada pela cantora em seu relacionamento e também a forma que a cantora lidou com as consequências dele.

 Apesar de silenciosos, relacionamentos abusivos podem resultar em situações mais drásticas que os traumas psicológicos, como o caso de Juliana Paiva, assassinada pelo namorado na praça de alimentação do Buriti Shopping no dia 29 de maio. Funcionários relatam que a jovem pediu ajuda, dizendo que estava sendo ameaçada e que havia sido estuprada pelo namorado.

 Outro tipo de consequência comum constatada pelas pesquisas do Instituto de Psicologia da UNB é a alta taxa de ideações suicidas por parte de ambos os gêneros. “Depois de uma relação conturbada e problemática com meu ex, terminei com ele e ele terminou com a vida”, é o relato da jovem Q.* sobre o suicídio do ex-namorado na última semana.

Dificuldade e melhora

 As vítimas, em especial as mulheres, ao identificarem o relacionamento abusivo, também enfrentam as dificuldades de sair dele. Os principais fatores são o medo do novo, de recriar uma nova identidade, a negação da realidade dos abusos, a pressão e a vergonha das pessoas, todos esses normalmente estão relacionados à dependência criada na relação, principalmente, a afetiva.

 A gravidade tanto dos abusos quanto da dependência dentro do relacionamento influencia no grau de dificuldade das vítimas em superar a problemática. Não há uma fórmula única de solução, porém, o recomendado é que, assim que reconhecido o relacionamento abusivo, a vítima se esforce para cortar os laços e busque ajuda.

 Cortar os laços não é uma tarefa simples e leva tempo, mesmo após o fim do relacionamento, os problemas podem continuar. “Não sei dizer o que foi pior, o relacionamento abusivo ou os meses após ele, quando me envolvi em joguinhos e me desgastei para tentar ficar ao lado de quem não me merecia e, pior, não fazia questão de me ter por perto”, diz M.*

 A ajuda pode vir de diferentes canais, como o apoio de amigos e familiares, mas é recomendado que as vítimas busquem ajuda profissional, imprescindivelmente. Esses apoios são importantes para enfrentar os sintomas de estresse pós-traumático, os medos de se relacionar novamente e o sofrimento.

 

A pessoa abusiva é imprevisível, por isso, é preciso que a vítima esteja preparada e possa contar com apoio de terceiros. O medo de enfrentar o fim do e as consequências dele é um dos fatores que causam grande dificuldade às pessoas que precisam sair de um relacionamento abusivo, mas é preciso reforçar a conscientização de que nada pode ser pior que continuar nele.

|Colaboração artística de Kahalia |

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